Vídeo de abordagem da PM gravado por jornalista detido por desobediência em Vitória é divulgado

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O vídeo gravado pelo repórter Vinícius Arruda, detido por desobediência após filmar uma abordagem policial a suspeitos de assédio, em Vitória, foi divulgado na tarde desta terça-feira (11).

O jornalista foi detido na manhã desta segunda-feira (10) e liberado no final da tarde, após assinar um termo circunstanciadoEm nota, o Metro, jornal onde ele trabalha, disse que o funcionário “foi movido por seu profissionalismo” e que espera que os responsáveis sejam punidos.

A Reportagem procurou a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) para saber se alguma medida será tomara em relação à atitude dos policiais, mas ainda não teve retorno.

Na gravação, dois policiais militares se identificam como soldado Valverdi e soldado Aurélio. O primeiro fala que vai levar o celular jornalista como prova e que ele terá que ir para o Departamento de Polícia Judiciária (DPJ). Vinícius contesta, dizendo que não pode ser levado para o DPJ e que está cumprindo seu dever de jornalista.

“Vou conduzir o senhor como testemunha deles, beleza?”, disse um dos policiais. O repórter questiona o motivo. “Vocês não está filmando?”, justifica o PM. A gravação continua.

Em seguida, o soldado Aurélio fala que o repórter tem que entregar seu RG e seu crachá. “Estou te dando uma ordem legal. Me apresenta o seu documento de identidade e o seu crachá. Se o senhor não obedecer a ordem dada, nós vamos algemar o senhor por desobediência. Isso é uma ordem policial”.

Relatos do fato

Vinícius contou que estava de carro, a caminho do trabalho, quando viu uma abordagem policial que considerou truculenta, e decidiu parar. Com o celular da empresa, ele começou a filmar a ação, e foi questionado pelos policiais, que pediram que ele entregasse o aparelho.

Mesmo depois de ter se identificado como jornalista e apresentado a identificação, Vinícius foi levado para a delegacia. Mas, segundo ele, só soube que estava preso ao chegar ao DPJ de Vitória.

“Eu me identifiquei como jornalista, apresentei minha credencial e a todo momento foi dito que se eu não entregasse meu celular e a minha identidade, eu seria preso por desacato e desobediência. Ao final de toda ocorrência, fui encaminhado pro DPJ de Vitória, a princípio como testemunha, porque eles utilizariam meu celular como prova. Só aqui dentro da delegacia que fui saber que estava preso por desobediência”, contou.

A Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo (Sesp) foi procurada pela reportagem na tarde desta segunda-feira (10), mas não apresentou uma versão sobre o ocorrido. Em nota, o governo do estado disse que está acompanhando o caso.

O advogado do grupo Sá Cavalcante, Rodrigo Horta, que representa o jornalista, disse que, segundo a polícia, Vinícius foi preso porque teria atrapalhado a abordagem.

“A versão do PM é que o Vinícius se aproximou muito, e que houve vários alertas para ele se afastar. Em razão disso, ele teria atrapalhado a abordagem policial. Não é isso que o vídeo mostra, mostra um jornalista parado, filmando, e a todo tempo a PM querendo o celular”, explicou.

O vídeo feito pelo jornalista ainda não foi liberado pela polícia. Os suspeitos abordados pelos policiais durante a filmagem foram levados para a delegacia e liberados.

Assédio

A abordagem policial que Vinícius tentou registrar foi feita a dois suspeitos de assediar uma passageira dentro de um ônibus. A vítima contou que foi ofendida verbalmente e ameaçada por dois homens após pedir que um deles não encostasse nela.

“Ele começou a me xingar, falou que eu merecia ser estuprada. Me agrediu verbalmente e cuspiu em mim. Um indivíduo veio lá do fundo do ônibus, veio em direção a mim, achei que ia me defender, mas ele veio pra se juntar ao cara e começou a falar ‘vamos meter porrada nela’”, contou a jovem, que não quis ser identificada.

Já fora do ônibus, a vítima conseguiu identificar os suspeitos e, de longe, acompanhou o momento em que os militares fizeram a abordagem. Ela também viu quando o repórter se aproximou para fazer a imagem.

“Eu vi quando teve uma movimentação de um carro, ele parou no meio da rua, deixou a porta meio que aberta, ele estava um pouco alterado, eu já vi ele com o celular na mão. Eu pude ver que ele estava filmando a situação. Ele só tentava filmar a situação e a polícia pediu uma certa distância para ele não chegar, porque estava tendo uma abordagem. Ele foi ainda pra frente. Não teve agressão nenhuma”, disse.

Os suspeitos de assédio foram ouvidos na delegacia e liberados.

Repúdio

Sindijornalistas e Fenaj

Em nota, o Sindijornalistas e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) repudiaram a prisão do jornalista e chamaram de “autoritária e descabida” a ação dos policiais. O Sindijornalistas disse, ainda, que está acompanhando o caso e denunciará aos organismos institucionais competentes.

“O Sindijornalistas e a Fenaj estão perplexos com mais uma atitude intimidatória de agentes públicos do Estado que nada mais são do que um atentado à Liberdade de Imprensa e ao direito do profissional exercer sua profissão. Além do mais, destacam a falta de compromisso do secretário de Segurança Pública, André Garcia, que em reunião com a direção do Sindicato dos Jornalistas afirmou categoricamente, em 2013, que sempre respeitaria jornalistas que se identificassem ao filmar qualquer ação policial em vias públicas, como foi o caso”, diz a nota.

ABERT

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) também repudiou a detenção do repórter. Segundo a associação, as imagens foram preservadas e mostram que a filmagem foi feita à distância.

“A ABERT condena a arbitrariedade da ação policial e a violência à liberdade de expressão. Qualquer tentativa de impedir que profissionais da imprensa exerçam seu trabalho viola o direito constitucional da sociedade de acesso à informação de interesse público”, diz a nota.

 A Associação pede às autoridades do Espírito Santo a apuração dos fatos e a punição dos responsáveis.

Governo do estado

O governo do estado também se pronunciou por nota informando que “repudia qualquer ação intimidatória contra jornalistas no exercício da função, preza pela liberdade de expressão e reconhece o trabalho dos jornalistas como essencial na construção da democracia.”

A Polícia Civil e a Secretaria de Estado de Comunicação estão acompanhando o caso. Ambos estão em diálogo com o Sindicado dos Jornalistas do Espírito Santo e o jornalista Vinícius para que os fatos sejam apurados.

Metro

O Metro Jornal lamentou o episódio. “Jornalista é jornalista 24 horas por dia. E Vinícius foi movido por seu profissionalismo ao tentar gravar cenas de uma abordagem policial. Vinicius tinha esse direito como repórter e como cidadão, mesmo porque ele fazia sua gravação num local público e a uma distância suficiente para não se envolver diretamente na ação da polícia”, diz a nota.

“Os policiais exageraram na sua atitude, possivelmente porque temiam o conteúdo das gravações. [..] O Metro Jornal só espera das autoridades responsáveis que elas sejam realmente responsáveis e punam quem merece ser punido, com medidas equivalentes à gravidade do caso”, disse

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