De camelô a Governadora, Jacqueline Moraes representa a trajetória de uma mulher negra empoderada

Jacqueline Moraes é a primeira mulher, negra e da periferia, a assumir a vice-governadoria e hoje governadora do Estado do Espírito Santo. Há 10 anos, Jacqueline era mais uma das centenas de camelôs que montavam suas barracas de produtos importados a menos de 100 metros do Palácio Anchieta, sede do Governo do Espírito Santo. De 2009 a 2019 ela saiu da informalidade para subir a escadaria do Palácio Anchieta como a vice-governadora de Renato Casagrande, eleito com 55,49% dos votos válidos.

O Espírito Santo tem primeira vice-governadora e agora governadora mulher eleita da história do Estado.  Ela já foi presidente da Associação dos Camelôs do Espírito Santo, é mãe e avó, aos 43 anos, com um filho de dois anos, mesma idade do seu neto. Jacqueline Moraes tem uma história forte, uma história de verdade, uma história semelhante à de milhares de mulheres negras deste país, que passam por dificuldades e arregaçam as mangas para superar.

Cerimônia de Posse

Em seu discurso de posse durante a transmissão histórica de cargo que aconteceu no início da tarde desta sexta-feira (20) no palácio Anchieta, Jacqueline disse que as mulheres ainda são excluídas da vida política, mas que se sente feliz em ser a primeira mulher negra a assumir o Espírito Santo.

“Poder fazer parte da história do Espírito Santo como a primeira mulher a governar, desde a redemocratização, me deixa feliz. Isso nos faz ocupar um espaço como minoria. Como mulher negra. Ainda somos minora na política, mas maioria na vida. Estamos escrevendo mais um capítulo na história”, disse a atual governadora em exercício.

“O mais emocionante é escrever esse capítulo da história, é saber que a voz das mulheres está no centro do poder do estado do Espírito Santo […] é um momento de êxtase para as mulheres, que precisam dessa representatividade. Não só as mulheres, mas também os negros precisam buscar esses espaços de fala, de poder, de decisão, porque nossa sociedade precisa ser mais justa e mais equilibrada”, completou.

Ser mulher na política

Não é fácil. É desafiador representar a mulher, negra, que começou trabalhando nas comunidades, admite Jacqueline. Mas por outro lado, é isso que me fortalece e traz ânimo para continuar. “Em um passeio com minha família num domingo desses, fui parada por uma menina, também negra e com cabelos cacheados assim como eu. Ela me abraçou chorando e disse que ela se parecia comigo. Isso não tem preço. E é nesses momentos que eu entendo que tenho responsabilidades e preciso continuar”, afirma.

Breve histórico – Jacqueline Moraes nasceu no Rio de Janeiro. Veio para o Espírito Santo aos 12 anos de idade. Casada com Adilson Avelina dos Santos, mãe de três filhos, Jacque, como gosta de ser chamada, é microempresária e graduanda de Direito, reside em Cariacica desde que chegou ao Estado, cidade onde construiu sua família, carreira profissional e política.

Raízes de quem conhece a comunidade

Desde muito nova começou a trabalhar como vendedora ambulante no Centro de Vitória, aos 18 anos candidatou-se a vice-presidente da Associação de Moradores do Bairro Planeta II (AMOPLA).  Desde então, entrou na luta social pela comunidade, também foi presidente da Associação de Vendedores Ambulantes do Estado do Espírito Santo e duas vezes presidente da Associação dos Moradores do Bairro Operário, em Cariacica.

Dedicada às comunidades, candidatou-se a vereadora em 2012 pela primeira vez e foi eleita com 2.562 votos, primeira colocada do seu partido.  Ela lembra nitidamente o momento em que percebeu seu papel político e decidiu ir além. “Estava numa palestra. Eu ainda era presidente da associação do meu bairro. A pauta era a necessidade de captarmos recursos em Brasília para Cariacica. Meu bairro ainda não era pavimentado e isso era uma luta nossa. Vislumbrar essa conquista me fez enxergar que eu precisava estar na política”.

Mais um degrau

Jacqueline acredita que só quem galga um degrau de cada vez é capaz de encontrar equilíbrio em sua trajetória. “Quando recebi a notícia que tinha sido escolhida para ser a vice do governador Renato Casagrande, fiquei sem voz”, conta ainda impressionada. A cada passo dado, cada caminhada, cada retorno, cai a ficha dessa escolha, e junto o reconhecimento dessa responsabilidade. “Faço questão de manter minhas raízes. Frequento a mesma igreja, a mesma padaria, a mesma costureira e moro no mesmo bairro”, afirma.

 

Foto: Raíssa Bravim/Folha Vitória