Abelhas morrem em Anchieta após aplicação de fumacê

Testes irão confirmar se a causa das mortes foi o fumacê aplicado pela prefeitura

Vinte e cinco dias após o início da aplicação de inseticida pelo método do “fumacê”, o meliponicultor Thiago Branco perdeu 70% de suas caixas de abelhas nativas e sem ferrão. Os testes para confirmar a causa da morte serão feitos na cera e no alimento usado pelas abelhas, já que sobraram poucos insetos. “Há trinta dias elas estavam bem”, pondera.

Professor e biólogo, Thiago explica que o fumacê mata tanto as operárias, que estão voando em campo no momento da aplicação do veneno, quanto as larvas, dentro das caixas, ao receberem alimento – pólen e néctar – contaminado com inseticida ou agrotóxico.

“Primeiro as crias morrem. Depois as operárias destroem os discos das crias, pra tentar fazer novos discos para novas larvas”, explica. As abelhas vivem, em média, de trinta a quarenta dias. Então, se as larvas morrem na caixa, as operárias que morrerem não serão reposta, aniquilando todo o enxame.

Não só as abelhas morrem como inseticida aplicado nos carros, adverte o professor. Todos os insetos e até pássaros pequenos são afetados. “O fumacê é tão destrutivo para a biota que deveria ser proibido”, reivindica.

E, para piorar, ele não é eficaz para a dengue. “A fêmea do Aedes aegypti não voa, ela fica guardadinha nos cantinhos das casas”, conta. Já o macho, que é afetado pelo fumacê, não é hematófago, somente a fêmea, dentro de casa, se alimenta do sangue humano. Mas o fumacê é um excelente cabo eleitoral, por isso o uso intensivo próximo das eleições, principalmente municipais.

Testes

Os testes sobre a causa da morte de suas abelhas será solicitado ao Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). Confirmada a relação com o fumacê, a intenção é cobrar da prefeitura mais cuidado, com o estabelecimento de horários para a aplicação do inseticida.

“Ou, o ideal, conseguir fazer com que esse veículo não seja usado mais”, projeta o biólogo. “E que a população seja informada do real motivo, que não é só a morte das abelhas, mas a ineficácia contra a dengue”, sugere.

Outra medida eficiente seria elaborar um plano de Educação Ambiental para a população ser conscientizada sobre os reais vilões na epidemia de dengue e a importância dos polinizadores, propõe Thiago.

“Nós estamos passando por uma época muito complicada com o sumiço das abelhas. O clima se alterando e elas a cada dia mais sumidas da área urbana e rural”, ressalta. A meliponicultura – criação de abelhas sem ferrão ou abelhas nativas – traz um pouco de alento, pelo fato de poderem ser criadas na cidade e na rural, diz Thiago. Mas em ambos os espaços, o perigo é real. “Esse ano perdi seis caixas de abelhas em Santa Teresa, no meio de uma plantação de café, mesmo mantendo cercas vivas”, relata.

É preciso abrir os olhos da população e dos governantes, suplica o biólogo. “Sem polinização a gente não tem alimento, não tem floresta, não tem água, não tem vida. É a base da pirâmide, que sustenta todo o resto. E, querendo ou não, a gente faz parte desse meio, apesar de muitos acharem que não. E, além de fazer parte, nós somos os animais que mais afetam os ciclos dos outros”, lamenta.

Casos recorrentes

Relatos de morte de abelhas contaminadas por agrotóxicos em lavouras ou fumacês aplicados pelas prefeituras são recorrentes em todo o Estado, tanto nas cidades quanto no campo.

Em Vitória, um diálogo com a Associação dos Meliponicultores do Espírito Santo (AME-ES) conseguiu estabelecer horários fixos para a aplicação do fumacê, evitando o período diurno, quando as abelhas estão voando e podem morrer durante o voo ou levar alimento envenenado para as larvas e rainhas.

A Capital, em dezembro passado, também proibiu a utilização de inseticidas à base de nicotina no fumacê, por se tratar do princípio ativo mais letal para as abelhas.

Um projeto de lei proibindo os neonicotinoides tramita na Assembleia Legislativa para estender a medida a todo o Espírito Santo.

 

Fonte: Século Diário / Por: De Fernanda Couzemenco